Apesar dos avanços conquistados nos últimos três anos por meio de políticas públicas e da mobilização do movimento negro, a violência racial continua sendo uma das principais barreiras para a construção da igualdade no Brasil. É justamente essa realidade que o Julho das Pretas, mês de luta das Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, busca evidenciar ao denunciar que as mulheres negras seguem entre as mais impactadas pelos efeitos da violência e do racismo estrutural.
Os números revelam a dimensão desse problema. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, pessoas negras representam 83,1% das vítimas de intervenções policiais no país, evidenciando que a violência tem cor e reflete a permanência do racismo estrutural. Mais do que um indicador estatístico, o dado demonstra como a negação de direitos, a desigualdade de oportunidades e a discriminação colocam, diariamente, a vida da população negra em risco.
Os impactos dessa violência vão muito além das vítimas. Cada morte desestrutura famílias inteiras, interrompe projetos de vida e aprofunda desigualdades sociais. Mães enterram seus filhos, mulheres tornam-se viúvas, crianças e adolescentes crescem sem seus pais, enquanto irmãos, irmãs e comunidades convivem com a dor permanente da perda.
"Enfrentar o racismo significa combater todas as formas de violência e discriminação, promover igualdade de oportunidades, garantir trabalho decente, fortalecer políticas públicas e assegurar que homens e mulheres negras possam viver e trabalhar com dignidade, segurança e respeito", afirma a secretária nacional de Combate ao Racismo da CUT, Júlia Nogueira.
As consequências também são econômicas. Quando um trabalhador ou uma trabalhadora negra tem a vida interrompida pela violência, muitas famílias perdem sua principal fonte de renda. Mulheres passam a assumir sozinhas o sustento da casa e a criação dos filhos, enquanto crianças e jovens têm seu futuro comprometido pela ausência de quem lhes garantia proteção, cuidado e condições mínimas de sobrevivência.
O racismo, assim, alimenta um ciclo de pobreza e vulnerabilidade que atravessa gerações. As mulheres negras são as que mais sofrem os efeitos desse cenário. Além de enfrentarem as desigualdades impostas pelo racismo e pelo sexismo, elas assumem a responsabilidade pelo cuidado das famílias e carregam o peso da violência que vitima seus filhos, companheiros, irmãos e demais familiares.
Para Júlia Nogueira, são essas mulheres que reorganizam a vida familiar diante da perda. "Elas acolhem os órfãos, buscam respostas das instituições e transformam o luto em luta por memória, justiça e garantia de direitos", diz.
Nesse contexto, o Julho das Pretas celebra os avanços conquistados pelas mulheres negras na luta por direitos, mas também chama atenção para desafios que persistem, como a violência racial, o genocídio da juventude negra, as desigualdades no mundo do trabalho e a necessidade de ampliar políticas públicas de promoção da igualdade racial.
Basta de Racismo no Trabalho e na Vida
Segundo a secretária nacional de Combate ao Racismo da Central, enfrentar a violência contra a população negra exige que o combate ao racismo ocupe um lugar central na agenda política e sindical.
"A CUT, por meio da campanha Basta de Racismo no Trabalho e na Vida, reafirma que o combate ao racismo precisa estar no centro da luta sindical e da defesa da democracia", afirma.
Júlia Nogueira destaca que a persistência da violência demonstra que a igualdade racial ainda está distante de ser uma realidade no país.
"O Julho das Pretas reforça a necessidade de transformar indignação em ação, fortalecendo políticas de proteção à vida, de promoção da igualdade racial e de combate às desigualdades. Defender a vida da população negra é defender o futuro de suas famílias e o direito de todas as pessoas a uma sociedade verdadeiramente democrática, sem racismo e sem violência", conclui.
Fonte: Walber Pinto | Redação CUT


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