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Da fronteira ao comando nacional: Fátima Silva é a nova presidenta da CNTE

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A nova presidenta exalta a força das mulheres, relembra suas origens no “Brasil profundo” e afirma a educação pública como eixo de soberania e democracia diante do avanço da extrema direita

Brasília foi palco de um reencontro simbólico da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) com sua própria história. Ao ser empossada presidenta da entidade para o quadriênio 2026–2030, a professora Fátima Silva não apenas sucedeu Heleno Araújo: ela marcou o retorno de uma mulher ao posto máximo da Confederação após quase duas décadas.

Eleita pela chapa “Unidade para Lutar e Conquistar”, a dirigente sul-mato-grossense leva para o centro do debate nacional a vivência do chão da escola e a experiência diplomática forjada na atuação internacional.

A nova diretoria reflete a diversidade territorial e política da CNTE, reunindo dirigentes de todas as regiões do país. A composição traduz a força nacional da entidade e garante que as diferentes realidades da educação brasileira estejam representadas na condução da Confederação.

Sua posse, no 35º Congresso da CNTE, no dia 18 de janeiro de 2026, foi atravessada por emoção, memória e um chamado político direto à categoria.

Em seu primeiro pronunciamento, Fátima conectou sua trajetória pessoal à luta coletiva de mais de um milhão de trabalhadoras e trabalhadores da educação.

“Chegamos até aqui com o coração cheio de esperança, gratidão e muita responsabilidade”, afirmou, antes de situar suas origens: “E se alguém perguntar de onde venho, como diz a música Sonhos Guaranis, ‘venho da fronteira onde o Brasil foi Paraguai’”.

Do chão da escola à liderança nacional

A identidade fronteiriça de Fátima não é retórica. É o alicerce de sua militância. Sua carreira no magistério começou em 1985, em Coronel Sapucaia (MS), município que ela define como parte do “Brasil profundo”, onde fronteiras são mais encontros do que limites.

Foi ali, em meio à escassez de vagas, salários atrasados e ausência de políticas públicas, que se formou sua consciência política. “Vim do chão da escola, e foi lá que descobri muito cedo que ser educadora é um ato de coragem”, disse.

Sua trajetória acompanha a própria organização da categoria no Centro-Oeste. Participou de greves históricas ainda nos anos 1980, ajudou a fundar a associação local de professores e chegou à presidência da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (FETEMS), cargo que ocupou por dois mandatos. 

O caminho da sala de aula à liderança nacional consolidou-se agora no comando da maior confederação de educadores da América Latina.

Protagonismo feminino e representatividade

A eleição de Fátima Silva tem peso simbólico para uma categoria composta majoritariamente por mulheres. Ela é a segunda mulher a presidir a CNTE em toda a história da entidade, após Juçara Dutra Vieira (2002–2008).

Em seu discurso, Fátima rejeitou a leitura de que sua posse seja apenas uma mudança administrativa. “Não se trata apenas de ocupar um cargo, mas de reafirmar que as mulheres têm voz, têm história e têm papel central na luta sindical e na construção da educação pública brasileira”, afirmou.

Ao citar Conceição Evaristo, reforçou que “o importante é abrir caminhos”. Sua gestão, garantiu, dará centralidade às pautas de gênero e ao enfrentamento do machismo estrutural que desvaloriza a docência ao naturalizar o trabalho do cuidado.

“Não viveremos dias fáceis”

A nova presidenta assume em um cenário nacional e internacional adverso. Em tom direto, alertou para o avanço da extrema direita, os ataques às instituições democráticas e as tentativas de mercantilização da educação.

“Companheiras e companheiros, não viveremos dias fáceis e em calmaria”, advertiu. “Por isso, precisamos estar juntos e nos apoiar, alimentar a esperança, estar presentes na nossa base social, porque é de lá que vem a nossa força.”

Entre as prioridades anunciadas estão a resistência à Reforma Administrativa, a garantia do Piso Salarial Profissional Nacional com repercussão na carreira e a defesa da liberdade de cátedra. 

“Temos a luta permanente pela autonomia nos processos de ensino e aprendizagem, enfrentando a onda conservadora que nos coloca sob ataque e vigilância”, afirmou.

Para inspirar a resistência necessária, recorreu a Eduardo Galeano: “Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível”.

Um olhar para o mundo e para o futuro

Com ampla experiência internacional, Fátima afirmou que a soberania dos povos é inegociável. Criticou a “ganância imperialista” e defendeu o fortalecimento da articulação com a Internacional da Educação e com centrais sindicais do mundo. 

“Precisamos ampliar a solidariedade aos povos irmãos da América Latina e do mundo, resistindo em defesa da paz, dos direitos humanos e do multilateralismo”, disse.

Ao encerrar sua fala, sintetizou o espírito que deve guiar a CNTE até 2030: honrar o passado sem abrir mão da invenção do futuro. “Legado não é passado. É projeção de novos caminhos de resistência, lutas, conquistas e esperança.”

Com a força de quem começou a lecionar na periferia da fronteira e hoje lidera uma entidade de dimensão continental, Fátima concluiu com uma convocação à unidade e à bravura:

“O presente nos convoca, o futuro nos desafia. A vida e a luta exigem coragem. E coragem não nos falta.”

COMPOSIÇÃO DA DIRETORIA DA CNTE - GESTÃO 2026/2030

 

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