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Homenagem

Aniversário de Paulo Freire. Patrono da educação nacional revolucionou a forma de educar no Brasil e no mundo

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Reconhecido mundialmente e declarado o patrono da Educação brasileira, Paulo Freire mudou a concepção da educação e propôs um modelo educacional pautado na emancipação e conscientização política dos(as) educandos(as). 

O educador popular completaria, nesta terça-feira (19), 102 anos. Natural de Recife (PE), Freire foi um dos mais influentes pensadores brasileiros. O intelectual pernambucano é um dos autores mais lidos e celebrados da pedagogia mundial. Paulo Freire viveu com a família no Recife até os dez anos. O pai, Joaquim Temístocles Freire, era capitão da Polícia Militar. A mãe, Edeltrudes Neves Freire, fazia trabalhos domésticos, bordava e tocava piano.

Embora fizessem parte da classe média, os Freire chegaram a passar fome em meio à crise do final da década de 1920. Paulo só conseguiu estudar, porque os irmãos Stela e Temístocles ajudaram desde cedo com as despesas da casa. Em 1931, a família se mudou para o município vizinho, Jaboatão dos Guararapes (PE).

Paulo cursou o ginásio no Colégio 14 de Julho, no centro do Recife. Depois de perder o pai, aos 13 anos, mudou para o Colégio Oswaldo Cruz. Em troca da gratuidade na matrícula, trabalhou como auxiliar de disciplina. Aos 22, ele ingressou na Faculdade de Direito do Recife, que hoje faz parte da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Durante e após a graduação, Freire foi professor de Língua Portuguesa no Oswaldo Cruz. Com o diploma em mãos, também passou a dar aulas de Filosofia na Escola de Belas Artes da UFPE.

Em 1944, casou-se com a funcionária pública Elza Maia Costa de Oliveira, que também se formou em direito e dedicou a vida à pedagogia. Ela foi uma das pioneiras em arte-educação no Brasil e faleceu em 1986.

A inquietação de Freire com os métodos de ensino tradicionais se materializou, pela primeira vez, em 1955. Na época, ele liderou a fundação do Instituto Capibaribe, que funciona até hoje. A ideia era construir uma escola “alternativa”, sem fins lucrativos, para fazer contraponto à educação acrítica e conservadora da época. Freire afastou-se da direção do Instituto Capibaribe um ano depois, mas logo seria conhecido nacionalmente com experiências ainda mais inovadoras Em 1958, ele apresentou as bases teóricas de seu sistema de alfabetização de adultos no II Congresso Nacional de Educação de Adultos, no Rio de Janeiro (RJ).

A primeira elaboração sistemática de seu pensamento veio no ano seguinte, ao submeter uma tese de concurso para a cadeira de Filosofia da Educação na Escola de Belas-Artes de Pernambuco. Em 1961, ocupando o cargo de diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife, Freire montou um grupo de educação popular que alfabetizou 300 cortadores de cana da região em 45 dias. Na época, ele atuava no Movimento de Cultura Popular (MCP), que apostava na alfabetização e na conscientização dos trabalhadores por meio de círculos de cultura.

A experiência mais conhecida de Freire naquela época ocorreu em 1963, em Angicos (RN). Lá, cerca de 300 trabalhadores foram alfabetizados após 40 horas de estudo. Uma das novidades da sua proposta era a utilização de palavras comuns ao cotidiano dos trabalhadores como ponto de partida para a alfabetização – por exemplo, “tijolo”. A experiência de Angicos, que gera frutos até hoje, repercutiu em todo o país.

Paulo Freire não havia publicado suas obras mais importantes, mas seus conceitos já eram influentes. Os grupos de alfabetização de adultos, coordenados pela juventude, geralmente se formavam em paróquias onde havia padres progressistas. Naquela época, a Juventude Agrária Católica (JAC) e a Juventude Universitária Católica (JUC) também debatiam marxismo e estavam comprometidas com a transformação social.

O pensador brasileiro teve contato, nessa época, com a teoria da dependência – que também dialogava com a Teologia da Libertação. Em 1963, meses após o experimento de Angicos, Darcy Ribeiro, então ministro da Educação, recomendou que Paulo Freire concebesse um programa nacional de alfabetização. Na mesma época, foi instituída no Ministério uma Comissão de Cultura Popular, da qual Freire foi nomeado presidente. A primeira tarefa era levantar o número de analfabetos de 15 a 45 anos, para então elaborar seu programa. A contagem ultrapassou os 20 milhões. O Programa Nacional de Alfabetização foi publicado oficialmente em janeiro de 1964, com metas ousadas. Entre elas, alfabetizar 1,8 milhão de pessoas, com o “sistema Paulo Freire”, já no primeiro ano.

Muitos dos sonhos daquela geração foram interrompidos com o golpe civil-militar de 1964. O então presidente João Goulart foi deposto e centenas de trabalhadores e intelectuais passaram a ser tratados como inimigos. Em 16 de junho, Paulo Freire foi preso e levado para Olinda (PE). Acusado de “subversivo e ignorante”, passou 70 dias detido em um quartel, até ser liberado. Sem condições de realizar seu trabalho, dois meses depois, o educador partiu para o exílio.

Parte significativa da obra de Freire foi escrita fora do país. O único livro dele que circulou no Brasil no fim dos anos 1960 foi Educação como Prática da Liberdade, baseado na tese apresentada na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife. Após uma passagem breve pela Bolívia, o educador brasileiro chegou ao Chile em novembro de 1964 para trabalhar no Instituto de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (ICIRA).

No país andino, permaneceu cinco anos e escreveu sua obra mais lida: Pedagogia do Oprimido propôs uma revisão da relação entre educadores e educandos. O diálogo é visto como “exigência existencial” e deve ser a base para a constituição do processo de ensino e aprendizagem. O livro questiona a hierarquização das escolas e salas de aula e defende que o estudante seja sujeito do processo de aprendizado. Ou seja, os conteúdos não deveriam ser padronizados nem “depositados”, seguindo uma cartilha ou diretriz curricular: todo o processo deve ser construído coletivamente, porque as realidades são diversas. A proposta é uma educação libertadora, em que o oprimido supere sua condição sem pretender assumir o papel de opressor.

A Pedagogia do Oprimido foi escrita e publicada pela primeira vez em 1968, mas só seria editada no Brasil por volta de 1984. O impacto fora do país foi tão grande que, em 1969, Freire tornou-se professor visitante da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. No ano seguinte, mudou-se para a Suíça para exercer a função de consultor educacional do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Nesse período, entre outras tarefas, assessorou o Ministério da Educação de países como Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, que eram colônias portuguesas até meados da década de 1970.

Antes de voltar ao Brasil, Freire esteve em mais de 30 países, prestando consultoria educacional e desenvolvendo projetos de educação voltados para a alfabetização e para a redução das desigualdades. A experiência de Freire no CMI contribuiu para que sua obra fosse lida e estudada em todo o planeta.

Em 2016, o projeto Open Syllabus listou os 100 títulos mais citados nas ementas de programas de estudos de universidades dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia. Pedagogia do Oprimido é o único livro brasileiro na lista e o segundo do campo da educação, com 1.021 citações.


O processo de abertura política do Brasil, que permitiu que as obras de Freire circulassem no país, também possibilitou seu retorno, na virada dos anos 1980, com a Lei da Anistia. O educador se filiou ao recém-fundado Partido dos Trabalhadores (PT) e atuou por seis anos como supervisor para o programa do partido para alfabetização de adultos. Meses após o fim da ditadura, faleceu a primeira esposa de Paulo Freire, Elza. Casados por 42 anos, eles tiveram cinco filhos: Maria Madalena, Maria Christina, Maria de Fátima, Joaquim e Lutgarde. O educador casou-se novamente em 1988, com Nita. Ela também é educadora, pernambucana, e conhecia Freire desde a infância. Meses depois, ao se tornar Doutor Honoris Causa na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Paulo Freire dedicou o título “à memória de uma e à vida da outra”.

Um dos anos mais importantes da história política do Brasil, 1988 também teve a promulgação da Constituição Federal e a eleição da primeira prefeita de São Paulo: Luiza Erundina e o seu secretário de educação foi Paulo Freire. Liderar a Secretaria era uma oportunidade de enfrentar na prática um modelo educacional ultrapassado, que Freire havia questionado nas décadas anteriores. Até hoje, a gestão de Erundina e Freire é vista como referência. Ao final do mandato, a rede municipal tinha 120 mil alunos a mais, e centenas de conselhos de escola, com caráter deliberativo, em funcionamento. Para democratizar as contratações para cargos de baixa escolaridade, a prova se tornou classificatória, e não mais eliminatória.

O Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA), criado em São Paulo em 1989, foi replicado por centenas de prefeituras do Brasil. Outra iniciativa lembrada com carinho era a possibilidade de abrir a escola nos finais de semana para refeições e atividades recreativas. Estudantes e pais assumiam o compromisso de manter a escola limpa, e até ajudavam na pintura e na manutenção. A experiência na Prefeitura de São Paulo foi descrita por ele em 1991, no livro A Educação na Cidade.

Doutor Honoris causa por 41 universidades diferentes, Freire faleceu em 2 de maio de 1997, às 6h53, em São Paulo, em decorrência de um infarto do miocárdio.
Os pesquisadores que estudam seus conceitos vêm das áreas mais diversas: pedagogia, letras, direito, serviço social, linguística, psicologia, antropologia, comunicação, artes, enfermagem, medicina, ecologia, nutrição, engenharia, economia e arquitetura.

Foi reconhecido como patrono da educação brasileira conforme a Lei 12.612, de 13 de abril de 2012.


 

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