Cerca de 500 representantes de entidades sindicais da educação de toda a América Latina estão reunidos em Bogotá, na Colômbia, para o VIII Encontro Regional do Movimento Pedagógico Latino-Americano (MPL) Stella Maldonado. A delegação da CNTE tem cerca de 100 participantes no evento, promovido pela Internacional da Educação para a América Latina (IEAL) entre os dias 5 e 7 de novembro de 2026.
Na quinta-feira (5), o painel “A defesa da educação pública 15 anos depois do lançamento do MPL” discutiu o percurso do movimento e os desafios que se impõem às organizações sindicais. Participaram do debate Fátima Silva, presidenta da CNTE; Combertty Rodríguez, coordenador regional da IEAL; Gloria Ramírez, representante da Federação Colombiana de Educadores (FECODE) e ex-senadora da Colômbia; e Hugo Yasky, dirigente da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA-T).
Fátima defendeu que as ferramentas de inteligência artificial sejam incorporadas como apoio ao processo pedagógico, sem substituir professores e professoras, seus conhecimentos ou sua autonomia.
“A nossa resposta para a inteligência artificial, e que o movimento sindical tem que trabalhar no próximo período, é a resposta da inteligência humana”, afirmou.
Para Fátima, as decisões sobre o uso dessas tecnologias já estão sendo tomadas por governos, empresas e fundações, enquanto os profissionais da educação e suas entidades permanecem afastados do debate. Os sindicatos, acrescentou, precisam se apropriar do tema para levá-lo às mesas de negociação.
A presidenta da CNTE também criticou sistemas de avaliação baseados em meritocracia, competição e mecanismos de prêmio ou punição. Ela lembrou que o MPL já discutia, no período de atuação da dirigente argentina Stella Maldonado, um modelo de avaliação construído a partir da experiência dos trabalhadores da educação.
Outro ponto defendido por Fátima foi a incorporação das recomendações da Unesco sobre a profissão docente à agenda de negociação sindical. A proposta é usá-las para cobrar dos governos valorização profissional, melhores condições de trabalho, respeito à representação sindical e participação dos educadores nas decisões pedagógicas.
Movimento precisa ganhar força em cada país
Combertty Rodríguez retomou os princípios que orientaram a criação do MPL. Segundo o coordenador regional da IEAL, o movimento nasceu com caráter político e organizativo e não pode funcionar apenas como uma articulação que se reúne periodicamente no âmbito regional.
“Um dos pontos de partida deste movimento pedagógico foi a compreensão de que ele é um movimento central, político e organizativo”, afirmou.
Rodríguez defendeu uma presença organizada do MPL em cada país, em diálogo com estudantes, comunidades escolares e instituições comprometidas com a educação pública.
“Este movimento pedagógico precisa necessariamente ter uma expressão em cada país. Tem de estar organizado e criar uma estrutura sólida, porque isso está relacionado àquilo que deu origem à Internacional da Educação: a defesa da educação pública”, disse.
Para o dirigente, mobilização e resistência precisam caminhar ao lado da formulação. Além de enfrentar a privatização e a comercialização do ensino, o movimento deve construir políticas públicas educacionais e propostas pedagógicas alternativas às orientações neoliberais.
Rodríguez também chamou atenção para a velocidade das mudanças tecnológicas. Segundo ele, o MPL precisa compreender essas transformações e formular respostas que preservem o pensamento crítico e a autonomia intelectual de estudantes e educadores.
Soberania se disputa no campo do conhecimento
Gloria Ramírez relacionou a defesa da educação pública à soberania científica, tecnológica e cultural da América Latina. Para a representante da FECODE, a concentração de dados, infraestrutura digital e capacidade de desenvolver inteligência artificial nas mãos de poucas empresas e países cria novas formas de dependência.
“Não há soberania política sem soberania do conhecimento”, afirmou.
Ramírez classificou esse processo como “colonialismo digital” e defendeu que a tecnologia esteja submetida à ética, ao controle democrático e aos interesses da sociedade. A ciência, disse, deve contribuir para o bem-estar humano, a justiça social, o enfrentamento da crise climática e a redução das desigualdades.
Em sua avaliação, educar não significa apenas preparar as pessoas para se adaptar ao mundo. A educação deve oferecer instrumentos para compreender a realidade, questioná-la e transformá-la. Isso passa pelo fortalecimento da capacidade latino-americana de produzir conhecimento, desenvolver tecnologias e definir os rumos de seus próprios sistemas educacionais.
Escola pública como território de paz
Hugo Yasky recuperou as origens políticas do Movimento Pedagógico Latino-Americano e a influência exercida pela experiência colombiana sobre os sindicatos da região. Segundo ele, a escolha de Bogotá para o lançamento do MPL reconheceu a trajetória da FECODE e homenageou educadores perseguidos e assassinados no país.
Ao tratar da inteligência artificial e da circulação acelerada de informações nas redes sociais, o dirigente ressaltou a atualidade do pensamento de Paulo Freire. A escola pública, afirmou, precisa continuar sendo um território de paz, reflexão, solidariedade, convivência democrática e formação crítica.
Solidariedade latino-americana
No encerramento de sua participação, Fátima Silva agradeceu às organizações vinculadas à Internacional da Educação que participaram da mobilização pela liberdade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e apoiaram brasileiros residentes no exterior durante as eleições.
A presidenta da CNTE classificou a eleição de Lula como uma vitória latino-americana, mas ressaltou a responsabilidade das organizações brasileiras na defesa da democracia e na construção das condições políticas para que o governo responda às demandas da população.
“A vida sempre exige coragem. E coragem não nos falta”, concluiu.




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