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Educação

“Acredito na educação como mudança”: a força de quem ensina na escola pública

No Dia dos/as Professores/as, a CNTE conversou com uma educadora do Distrito Federal sobre os desafios da EJA, o papel transformador da docência nas periferias e a militância sindical

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 Crédito: Geovana Albuquerque / CNTE

Do ensino infantil à educação de jovens e adultos, a escola é um ambiente de aprendizagem, desenvolvimento pessoal e de transformação social. A professora Vanilce Diniz, da rede pública do Distrito Federal, experienciou no chão da sala de aula o impacto da educação na vida de seus estudantes.

Em alusão ao Dia dos/as Professores/as, celebrado em 15 de Outubro, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) foi até Planaltina, região administrativa a 40 quilômetros da capital, para conversar com a docente sobre sua trajetória como educadora.

O ensino como agente de mudança

Vanilce ingressou na área da educação ainda no nível médio, quando participou de uma das últimas turmas do Curso Normal, o antigo magistério. Ela se formou em 2003 e logo seguiu os estudos em Pedagogia na Universidade Estadual de Goiás.

“Fiquei dois anos na escola particular, mas não sentia que ali era meu lugar. Eu gosto da escola pública, aqui eu tenho a possibilidade de mudar vidas”. Há quase quinze anos como professora na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF), Vanilce se orgulha do trabalho que exerce nas periferias da região.

Ela atua desde 2021 na EJA do Centro de Ensino Fundamental Juscelino Kubitschek, em Planaltina. A mesma escola em que estudou 30 anos atrás. “Eu acredito na questão do intelectual orgânico: Eu volto pra minha comunidade pra entregar o que eu aprendi”.

“A educação não pode ser só meramente formal, precisa fazer sentido para a vida das pessoas. Além de ensinar a ler e escrever, busco ensinar a fazer análise das coisas, porque eu moro na mesma comunidade que eu atuo. E eu posso falar de dentro da realidade”, disse a docente. 

Educação no dia a dia

A professora também trabalhou com educação infantil, mas se encontrou na docência de jovens e adultos. Vanilce conta que a alfabetização nessa fase tem reflexos diários na rotina dos/as estudantes, que são também trabalhadoras/es. 

Como exemplo, ela cita uma aluna que só pegava uma linha de ônibus para voltar para Brasília, porque a letra X era a única que ela reconhecia. “Ela só ia no ‘eixo norte-sul’. Passavam outros itinerários e ela não pegava porque não sabia que ia pro mesmo lugar”.

“Hoje não, ela pega qualquer ônibus. Ela consegue ler o itinerário e saber para onde ela tem que ir. Essa autonomia é uma mudança significativa na vida de alguém.”

Em outro caso, a educação salvou uma trabalhadora doméstica. “Uma aluna falou que, antes da minha aula, ela não sabia que não podia ser humilhada pela patroa. Ela disse: ‘Depois que você falou comigo sobre direitos trabalhistas, eu entendi que aquilo que eu vivia era errado. Então eu pedi demissão, fiquei três meses desempregada, mas hoje eu sou feliz”.

Desafios da escola

O trabalho docente é atravessado por desafios, sobretudo na educação de jovens e adultos. Vanilce comentou que a modalidade não é priorizada pela gestão: “Ao longo dos últimos oito anos, a gente teve fechamento de turmas da EJA. E não há uma política distrital de educação específica para essa etapa, cada escola decide o direcionamento”. 

Esse problema vem acompanhado de falta de material pedagógico adequado. “Muitas vezes, temos material infantilizado, que você trabalha com os alunos da alfabetização de criança, e precisamos adaptar para a alfabetização de adultos”, disse Vanilce.

“Todo início do ano, minha primeira aula é um bate-papo. O que eles esperam de mim? O que querem aprender?”. É assim que a pedagoga encaixa os aprendizados nos assuntos que interessam e beneficiam os/as estudantes.

A professora também defendeu que o planejamento da EJA precisa considerar a realidade dos/as estudantes que chegam na escola depois do trabalho. “O cansaço é uma das dificuldades. Falta uma política de incentivo para a EJA, o Pé-de-Meia poderia ser expandido para jovens e adultos, por exemplo”.

Valorização

Questionada sobre a onda de hostilidade direcionada aos profissionais da educação, Vanilce pontuou que o fenômeno é resultado do negacionismo científico. 

“Professores trabalham com a ciência, o acúmulo de conhecimento da humanidade. Se eu começo um processo de renegar a ciência, eu tô renegando esse profissional também. O professor vira o inimigo que mente, e todos os problemas da educação recaem sobre ele”.

A solução, comenta Vanilce, é retomar projetos de valorização dos/as professores/as: “Precisamos de reconhecimento da figura do professor como autoridade. Há hoje uma inversão. Quando o professor chama a atenção, o pai vai reclamar com o professor, não com o filho, muito por essa cultura que foi ensinada.”

“É necessário uma campanha nacional de valorização, que só vai acontecer se a gente tiver eleito um projeto que converse, priorize a educação e que a veja como ascensão. E que invista, porque se não houver financiamento, não há educação. Valorização profissional é também financeira”, completou Vanilce.

Ensino e mobilização

Vanilce encontrou no sindicalismo um espaço para lutar pelo projeto educacional que acredita. Em 2017, a professora participou do comando de greve, mesmo sendo temporária, e a partir dali descobriu os cursos de formação sindical do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF).

“Eu gosto da atuação sindical, de levar para as escolas o debate político que atinge os profissionais da educação”, contou. A pedagoga cumpre hoje o terceiro mandato como secretária de Formação Sindical no Sinpro.

Entre a sala de aula e a atuação no sindicato, a trajetória de Vanilce resume os múltiplos papéis do magistério público: acolher vidas através da educação, combater o negacionismo pela via da ciência e transformar a indignação cotidiana em luta coletiva por valorização e direitos.

 

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