Um clima de
pessimismo se instalou no último dia 16 sobre os destinos da educação
pública brasileira, após uma série de votações no Congresso Nacional. E até o
que parecia ou poderia ser bom, acabou por revelar graves problemas para a
qualidade da educação e a valorização de seus profissionais
O dia iniciou
com a informação de que o Congresso havia aprovado, na madrugada, o relatório
setorial da educação, cujo relator foi o senador João Ribeiro (PR-TO), com
“corte surpresa” de cerca de 1 bilhão no orçamento do MEC. A CNTE já manifestou
sua indignação com a decisão e espera poder conversar com o relator geral do
Orçamento, deputado Geraldo Magela (PT-DF), antes da votação final da matéria,
marcada para a próxima segunda-feira. A intenção é reverter por completo o
prejuízo, a fim de garantir a totalidade dos recursos previamente orçados.
Também pela
manhã, enquanto era realizada a reunião do Conselho Nacional de Entidades da
CNTE, um grupo de educadores foi a Câmara dos Deputados para acompanhar a
votação de dois Projetos de Lei de extrema importância para a categoria: um que
versa sobre a regulamentação do piso salarial profissional nacional, previsto
no artigo 206, VIII da CF/88 - voltado a todos os profissionais (professores,
especialistas e funcionários de escola) - e outro que trata da fixação de
diretrizes nacionais para a carreira dos mesmos profissionais previstos no PL
do PSPN. Ambos os projetos foram aprovados por unanimidade pelas comissões de
Trabalho, Administração e Serviço Público e de Educação e Cultura,
respectivamente, e agora seguirão juntos às comissões de Finanças e Tributação
e de Constituição e Justiça, para depois seguirem ao Senado.
Sobre os
projetos em comento, a CNTE reitera a importância dos temas em voga, mas também
manifesta discordância, sobretudo, sobre dois pontos, um de cada Projeto. O
primeiro, referente ao PSPN, diz respeito à necessidade de compatibilizar a
redação do PL 2.738/03 à Lei 11.738, que compreende o Piso como vencimento
inicial das carreiras dos profissionais da Educação - esse conceito, inclusive,
está assegurado no PL 1.592/03 de diretrizes da carreira. O outro ponto diz
respeito à possibilidade de postergar o financiamento das aposentadorias dos
trabalhadores em educação junto à rubrica de manutenção e desenvolvimento do
ensino, introduzida pelo relator do PL 1.592, uma vez que o correto é criar ou
capitalizar os fundos previdenciários dos servidores públicos, no caso dos
entes que possuem regimes próprios.
Mas a pior
notícia, que poderá ter impacto já em 1º de janeiro de 2010, chegou no início
da noite. A Câmara dos Deputados aprovou, na surdina e em caráter urgentíssimo,
o Projeto de Lei que modifica a forma de reajuste do Piso do Magistério. Pela
proposta, o reajuste deixa de ser o percentual aplicado ao custo aluno do
Fundeb (anos iniciais do ensino fundamental urbano) e passa a ser o INPC.
Embora o Projeto tramite na Casa, desde 2008, fato é que nenhuma articulação do
governo e do parlamento havia sido tomada, até então, na perspectiva de aprovar
a matéria neste fim de ano. Inclusive, a CNTE não foi chamada, em momento
algum, para debater o assunto, o que é inexplicável.
Cabe
esclarecer, sobre a questão do reajuste do Piso, que, até o momento, vale o
percentual destacado no Orçamento da União, de 18,2%, já que o Projeto de
modificação do percentual ainda não foi aprovado pelo Senado. E a CNTE tem
orientado os sindicatos a reformularem os planos de carreira da categoria sob
esta perspectiva, dado que a Lei do Piso fixou prazo até 31 de dezembro de 2009
para adequação dos planos. Mas o mais grave é que a nova proposta congela o
valor real do Piso, defasado desde a sua criação. Não por outro motivo, a CNTE
apoiava a permanência do índice do Fundeb, pelo menos por alguns anos, a fim de
compensar a discrepância do valor original. Mas a proposta, ora aprovada na
Câmara dos Deputados, impõe forte restrição à valorização do PSPN. Primeiro,
porque prevê somente a recomposição da inflação, desconsiderando qualquer
aumento real, como ocorre, por exemplo, com o Salário Mínimo. Segundo, porque
vincula a recomposição inflacionária a um dos menores índices de reajuste de
preços do mercado.
Por fim,
estamos às voltas com a aprovação do Projeto de Lei que prevê a extinção do
curso Normal de Nível Médio, antes mesmo de a CONAE se manifestar sobre o
assunto. Esta matéria é complexa e em tempos atrás significou um agravamento no
déficit de professores e uma corrida à formação universitária de baixo padrão
em instituições privadas também de baixa qualidade, fatos que, se se repetirem,
serão ruins para a educação pública brasileira.