Chegamos ao final da primeira década do século XXI
e nossos gestores educacionais e seus consultores propalam fórmulas que parecem
prato requentado ou mera transferência de técnicas empresariais de aumento de produtividade
como soluções para um ofício peculiar. Falta de imaginação, talvez, ou discurso
mercadológico de aceitação externa, o fato é que mais parece tentativa de
excluir diretores, especialistas e professores do
debate aberto sobre os rumos da educação, fazendo coro para envolver o grande público.
Como se a saída para a educação fosse questão circunscrita à disputa da opinião
pública, de mera formação de opinião.
O que seria qualidade na área educacional? Pelo
discurso dos gestores públicos, as notas de avaliações sistêmicas, como Saresp,
IDEB, Simave e outros. Seguindo esta trilha, a questão seguinte seria, por
lógica, o que as avaliações sistêmicas deveriam investigar. Mas aí, topamos com
um imenso silêncio. Hannah Arendt
sugeria que a função da educação é a humanização, ou seja, a inserção dos educandos
na humanidade, conformada por experiências plasmadas na linguagem, na escrita,
na música, nas artes. A humanidade possui a memória dessas experiências
transmitidas pela linguagem.
Autores mais focados no sucesso individual sugerem
que a qualidade da educação estaria centrada no progresso acadêmico ou de
emprego-renda do educando. Nossas avaliações sistêmicas
partem de qual princípio? De um vago e generalizado desempenho dos educandos,
sem que os não-gestores tenham qualquer condição de penetrar nesta fórmula
mágica. Já temos ao menos duas décadas de experiências com avaliações
sistêmicas externas a respeito do desempenho de nossos alunos.
Mas pelos artigos e propostas apresentadas pelos
gestores na grande imprensa, os avanços por eles promovidos foram pífios. Não
chegaram a sinalizar os rumos a serem seguidos para a qualidade e sucesso tão propalados.
Ao contrário. Dados recentes divulgados pelo IPEA indicam que apenas 13% dos
jovens entre 18 e 24 anos freqüentavam universidade em 2007. Grande parte deles
foi aluno avaliado por um dos modelos não revisados até hoje. Trata-se da faixa
etária mais vulnerável ao desemprego em nosso país.
Os dados oficiais revelam uma situação ainda mais
grave: menos da metade dos adolescentes entre 15 e 17 anos cursavam o ensino
médio em 2007. E as disparidades regionais e entre campo e cidade nos aproximam
de uma calamidade pública: 57% desses adolescentes que vivem nas cidades brasileiras
freqüentam o ensino médio, índice que despenca para 31% no caso dos que residem
no campo.
E aí começamos a desvelar o mundo real da educação,
e não este pasteurizado e inatingível pelos resultados das avaliações
sistêmicas: a taxa de freqüência dos que têm renda mensal
superior a cinco salários mínimos é dez vezes maior que os que percebem até meio
salário mínimo. Daí que o foco da avaliação de desempenho estar circunscrito à
escola, não avaliando o impacto da condição das famílias na performance
escolar, ser algo pouco inteligente. Daí sustentar que a melhora do desempenho
de nossos educandos ocorrer a partir de premiação de professores em relação à
performance escolar ser um gasto desnecessário e de
pouca evidência de sua eficácia.
Sem articulação de políticas públicas que fechem o
círculo da formação de nossas crianças e jovens, envolvendo escola, sua família
e comunidade, todas iniciativas se aproximam de tentativa e erro dos nossos
gestores. Talvez, esta é a motivação para se tornarem tão apaixonados pelas
fórmulas que os cidadãos não-gestores não compreendem em sua totalidade. Daí
porque vários se envolverem com articulações políticas e de conquista da
opinião pública cujo mote é envolver todos pela educação como se fora uma
mobilização sem base social, cujos líderes são sua própria base. Porque é uma
aposta e não uma certeza.
O processo educativo envolve muito mais que
avaliações meramente quantitativas focadas no educando.
Envolve o consórcio de professores e educadores que contribuem para a formação
cotidiana do educando. Envolve o impacto de pais que se têm hábito de leitura
ou práticas esportivas, estimulam que seu filho acolha como seu hábito a
leitura e o esporte. Algo que já se estudou e comprovou desde os anos 30 do século
passado. Também sabemos que o perfil do dirigente escolar impacta decisivamente
no desempenho de alunos. Mas as avaliações da moda no Brasil não conseguem
articular estes inputs. No máximo, apresentam dados
frios que não auxiliam os educadores a compreenderem por qual motivo 30% dos seus
alunos não sabem interpretar textos complexos, ao contrário do restante.
E, assim, lançam mão da tradicional e equivocada
aula de reforço, que repete fórmula que já se revelou equivocada anteriormente.
E o mundo gira, sempre no mesmo sentido. Enfim, marketing e educação nunca
foram bons aliados. Educação não vive limitada às boas intenções. Trata-se de um tema lastreado
em estudos e pesquisas que não geram respostas fáceis.