No
Brasil, é normal seus dirigentes serem vistos e sentirem-se como casta, com
privilégios muito além dos direitos aos quais o povo tem acesso. Os serviços de
saúde e educação à disposição das famílias dos eleitos são completamente
diferentes daqueles dos seus eleitores. Ninguém se espanta com o fato de o teto
do salário no setor público ser 25 vezes maior que o piso salarial do professor
- cujo valor, apesar de tão pequeno, até hoje, um ano depois de sancionado,
ainda é contestado na Justiça, como inconstitucional.
É
visto como natural que a parcela rica do Brasil tenha o maior índice de
cirurgias plásticas de rejuvenescimento em todo o mundo e a parcela pobre não
tenha acesso nem mesmo às mais fundamentais operações; que os 10% mais ricos
tenham esperança de vida de 72 anos e os 10% mais pobres de apenas 45 anos.
Todos aceitam que milhares peçam esmolas para comprar comida e remédios que
enchem as prateleiras de farmácias e supermercados.
Considera-se
normal que os 1% mais ricos da população recebam 20,5% da renda nacional e os
50% mais pobres recebam apenas 13,2%; que 19% das casas não tenham água
encanada e 51% não tenham saneamento ou esgoto. Aceitamos que 50 milhões
dependam de ajuda no valor de R$182 por mês para a sobrevivência de toda a
família, R$6 por dia, sem chance de trabalho com salário digno.
É
natural que crianças vivam nas ruas, sejam mendigos, pivetes, prostitutas,
trabalhadores, e não estudantes; que 11% delas cheguem aos 10 anos sem saber
ler; e 60 abandonem a escola a cada minuto do ano letivo, antes da conclusão do
Ensino Médio; e que entre as que permanecem, muitas vejam a escola como um
restaurante-mirim que fornece merenda. É aceito que os professores tenham a
menor remuneração entre os profissionais com formação equivalente; que deem
aulas em escolas sem água nem luz, raras com computadores e sistemas de vídeo.
Ficou normal que as escolas tenham se transformado em campos de batalha, os
professores sejam agredidos, as aulas viraram balbúrdia.
Mesmo
sem guerra, nos acostumamos com 125 mil pessoas mortas por ano em conseqüência
da violência. Aceita-se que o país com um dos cinco maiores territórios do
mundo - além de litoral e espaço aéreo - não apoie suficientemente suas Forças
Armadas para defenderem esse patrimônio.
Não
discutimos sequer o fato de conviverem 4,5 milhões de universitários ao lado de
14 milhões de analfabetos adultos e 40 milhões de analfabetos funcionais; de
que, 121 anos depois da abolição da escravatura, a cor da elite seja tão
predominante branca quanto era durante a escravidão; é aceito como normal que
as universidades sejam ocupadas, na imensa maioria, por jovens brancos e as
prisões, por jovens negros; que em 120 anos da República, o Brasil tenha uma
escola diferente para os ricos, na qualidade, da escola para os pobres; e que,
depois de 20 anos de democracia, a corrupção seja vista como uma prática comum
em todos os níveis da sociedade, especialmente entre os políticos.
É
normal que nossas reservas florestais sejam devastadas sistematicamente; e que
apesar de todas as evidências da catástrofe do aquecimento global, abramos mão
de bilhões de reais em impostos para viabilizar o aumento na venda de
automóveis privados, sem buscar uma reorientação dessa indústria, como forma de
manter o emprego do trabalhador, o bem-estar do consumidor e o equilíbrio
ecológico, a serviço das próximas gerações.
É
normal prender quem rouba comida ou remédio para os filhos e deixar solto quem
rouba bilhões mas pode pagar bons advogados.
E
é normal, nos dias de hoje, que os partidos que lutavam contra as injustiças
tenham optado pelo abandono dos sonhos, entregado-se às mesmas práticas do
passado e esquecendo-se de suas promessas. Na República, que comemora 120 anos,
é normal que a justiça, a escola, a saúde, o transporte, a moradia, a cultura
sejam tão diferenciadas, conforme a classe social, que as pessoas não pareçam
compatriotas.
No
Brasil, o anormal é normal; por isso, o normal é anormal. E imoral.
Senador Cristovam Buarque